03 outubro, 2008

Sobre a Resistência na Clínica Psicanalítica
















A aceitação de processos psíquicos inconscientes, o reconhecimento da doutrina da resistência e do recalcamento e a consideração da sexualidade e do complexo de Édipo são os conteúdos principais da psicanálise e os fundamentos de sua teoria,e quem não estiver em condições se subscrever todos eles não deve figurar entre os psicanalistas.
(S. Freud)


Antes da virada do século, procurando resolver certos impasses criados pela utilização da hipnose terapeuticamente, Freud elaborou uma nova técnica, intermediária entre a hipnose e a técnica psicanalítica propriamente dita que só foi estabelecida posteriormente. Essa técnica intermediária era ainda uma técnica sugestiva, no sentido de facilitar o retorno do material recalcado, contudo prescindia que o paciente diminuísse seu nível de vigília tal como ocorria no sono hipnótico. O que ocorria era que no decorrer do fluxo associativo, freqüentemente, apareciam momentos em que o paciente dizia que sua mente estava em branco, vazia de qualquer idéia ou imagem. Freud dizia, então, ao paciente que isso não podia ser assim, que alguma idéia devia estar bloqueada, e que ela apareceria quando tocasse a cabeça do paciente com as mãos. Era, portanto uma atividade sugestiva do terapeuta, propiciadora da continuação do fluxo associativo. Foi nesse contexto que Freud isolou o fenômeno da resistência.
À luz dessa situação, Freud supôs que à força sugestiva do médico se opunha uma outra força, no interior do paciente, que impedia o retorno das idéias recalcadas. Essa era a resistência que devia ser superada pelo analista. Descoberto o fenômeno, Freud percebeu que tanto a hipnose quanto aquela técnica sugestiva intermediária não desfaziam a resistência, mas simplesmente, contornavam-na. Uma vez terminada a ação diretiva do analista, a resistência reapareceria e as idéias recalcadas continuavam fora do acesso à consciência, sem qualquer elaboração.
É necessário pontuar uma dificuldade clínica que faz com que Freud desenvolva sua teoria a fim de abranger a explicação do fenômeno, sublinhar que a modificação efetiva do método clínico só pode ser nitidamente observado no caso de “Elizabeth Von R” paciente de Freud, particularmente refratária à ação hipnótica.
O conhecimento teórico da resistência vai demonstrar que o caminho para o acesso às idéias conscientes deve-se dar através da técnica da livre associação que passa então a ser a regra fundamental de um novo método, a psicanálise.
Após o estabelecimento da técnica psicanalítica, Freud constatou que as representações recalcadas emergiam normalmente após a resistência ter sido desfeita. Com isso, o esforço do analista devia concentra-se na detecção das resistências e em seu esclarecimento. É nesse momento que Freud vai então constatar clinicamente o fenômeno da “transferência” que, junto com a resistência constituem, dentro da teoria psicanalítica, o par de fenômenos de maior importância no processo analítico. Portanto, o método psicanalítico vai se estruturar a partir da explicitação desses dois fenômenos clínicos: resistência e transferência.
Em um de seus célebres artigos sobre a técnica, Freud vai concluir que: “... a contrapartida da associação livre no paciente corresponde à atenção flutuante no analista” (Freud, S. “Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise”. p.15).
Com tal afirmação, ele alerta que o analista deve evitar toda a influência consciente sobre a capacidade de escuta e abandonar-se por completo à sua memória inconsciente. No entanto, para que o analista possa servir-se de seu próprio inconsciente como instrumento na análise, é preciso não tolerar qualquer resistência que afaste de sua consciência o que seu inconsciente percebeu; caso contrário, induziria na análise uma forma de seleção e distorção que seria muito mais prejudicial que aquela oriunda do esforço de concentração calcado na atenção consciente.
Nesse sentido, é função do analista, por excelência, escutar e pontuar a vertente do desejo no discurso do analisando, tendo como desafio driblar a resistência que, por parte do analista, imporia em seleções, logificações e racionalizações.
Para isso, se faz necessário, “uma purificação psicanalítica” e conseqüentemente ter conscientes os seus próprios complexos que seriam passíveis de interferir na escuta do material do paciente. Freud adverte ainda que todo o recalcamento não resolvido do analista constitui um poderoso ponto cego em sua escuta analítica.
Isto posto, é de fundamental importância que o analista, em sua formação, se submeta a um tratamento analítico efetivo, a fim de ter acesso às suas questões inconscientes. Na verdade, o analista só consegue escutar alguém se ele também tiver sido escutado anteriormente. Com efeito, a “objetividade” de um analista consiste, principalmente, em uma determinada posição ética, face à sua própria subjetividade.

Regina Fernandes
(Psicanalista)

4 comentários:

Márcia(clarinha) disse...

Complexo estudo do complexo ser humano.
Obrigada querida, por me fazer entender um pouco mais.

lindo dia flor
beijos

Anônimo disse...

Como sempre um texto simples e direto. Excelente, amiga!
Bjs
Katia

Anônimo disse...

Eu ainda acabo psi de tanto que gosto de seus escritos.
Bj
Paulo

Aline Souza disse...

Nossa que legal você ter postado isso aqui. Sempre gosto de aprender sobre a psicanálise. Eu enviei um e-mail para você, ficarei muito feliz se você me retornar.