06 junho, 2007

Reflexões sobre Don Juan e o "ficar com..."


















É imensa a dificuldade da minha geração em compreender a lógica dos novos tempos, pois para nós os termos ficar e sair são antagônicos, entretanto atualmente têm exatamente o mesmo significado. Ficar com, ou sair com, significam a mesma coisa. São termos usados para designar a atitude de se relacionar sexualmente, sem nenhum compromisso de continuidade.
Essa nova modalidade de se expressar me reporta ao personagem Don Juan, do filme Don Juan de Marco, com Marlon Brando e Jonny Depp, escrito e dirigido por Jeremy Leven. Don Juan é um personagem literário, paradigma do eterno sedutor, tido como símbolo da libertinagem. A figura de Don Juan além dos romances foi também cultuada na música, em obras de Strauss e Mozart, este último com a ópera Don Giovanni, composta em 1787. Aparece ainda na obra de Molière, em Le Festin de Pierre, no poema satírico de Byron chamado simplesmente Don Juan, no drama de Bernard Shaw, chamado Man and Superman.
Podemos dizer que Don Juan assinala um padrão de personalidade caracterizado por uma pessoa narcísica, inescrupulosa, enamorada, amada e odiada, para quem vale tudo na conquista de uma mulher. Foucault enfatiza essa questão ao dizer que Don Juan arrebenta com as duas grandes regras da civilização ocidental, a lei da aliança e a lei do desejo fiel.
E qual seria a ligação entre o filme e a conduta social nos tempos modernos?
Poderíamos dizer que a característica principal seria uma forte compulsão para a sedução que reflete uma estrutura social e um comportamento específico. Don Juan se apresenta com uma personalidade que necessita seduzir o tempo todo, que aparentemente se enamora da pessoa difícil, mas uma vez conquistada, a abandona. As pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. O “ficar com” caracteriza também um relacionamento compulsivo para a sedução, que não implica obrigatoriamente em nenhuma combinação ou contrato prévio, que é fugaz devido à provisoriedade da união. Não há compromisso de continuidade porque, ao menor sinal de interesse de um dos envolvidos no sentido de continuar, a relação se desfaz e é evitada. Nessa nova modalidade de relacionamento não há envolvimento amoroso, não há cobrança de compromisso.
A diferença marcante entre os dois comportamentos pode ser entendida pela palavra conquista. Com Don Juan vemos a figura do “príncipe encantado”, o homem sedutor que vem arrebatar sua amada com promessas de amor eterno. Ele tem habilidade em perceber rapidamente os gostos e franquezas de suas vítimas e, é igualmente rápido em atender as mais diversas expectativas. Já o “ficar com..." não implica numa verdadeira conquista, pois é apenas uma afinidade recíproca, um não conquista o outro porque ambos estão, decididamente, com o mesmo objetivo em mente. “Ficar com” implica em essência e caracteristicamente, na ausência de sentimentos mais profundos de ambas as partes.


Regina Fernandes
Psicanalista

4 comentários:

Anônimo disse...

êta nega!!! arrebentou, hein?
o poço sem água, abismo sem fim, miolo de pote é esse tal de "ficar com"!!!!
adorei!!!
beijos
euzinha

silzinha disse...

Regina, belo texto. Adorei, como tudo que escreves.
Agora que consegui a "chave da entrada" venho sempre fazer uma visitinha.
Teu blog é um mimo de capricho, parabéns.
Beijos querida

Regina Fernandes disse...

Sandroca e Silzinha obrigada pelo carinho.
Bjocas

Anônimo disse...

Your blog keeps getting better and better! Your older articles are not as good as newer ones you have a lot more creativity and originality now. Keep it up!
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