31 março, 2010

Eu escrevi um poema triste



Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
 
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
 
Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
 
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...
 
 
(Mario Quintana )

28 março, 2010

O Sono das Águas



Há uma hora certa,
no meio da noite,
uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,porque a água dos olhos
nunca tem sono...


(João Guimarães Rosa)

23 março, 2010

Canção de Outono



O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...
Partir, ó alma, que dizes?
Colhe as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!

(Mario Quintana)

22 março, 2010

Acabou-se o que era doce... Fim do Verão.


Ontem terminou o verão de 2010. Foi a estação mais calorenta dos últimos tempos com dias muito quentes e dias de muita chuva que causaram muitos estragos mudando a história da cidade. Os termômetros chegaram a marcar 42.8 graus, com sensação térmica de 51 graus, as lojas nunca venderam tanto ar-condicionado e os estoques de ventiladores acabaram rapidamente. Foi o tempo dos apagões trazendo medo, insegurança e prejuízo para a população, mas também tivemos praias lotadas com o mar limpinho (acreditam?) e foi possível curtir o carnaval sem chuva... só alegria!

Como hits do verão carioca podemos destacar alguns, como por exemplo, o hábito de curtir a praia até bem tarde da noite, os vestidos curtinhos tomara-que-caia e balonês, assim como os macacões como peças chave no guarda-roupa feminino, as luzes californianas nos cabelos, a maquiagem bronze, os tênis Keds, os filmes Avatar e Lua Nova, o mega empresário Eike Batista, as canções da Beyoncé, a canção I've got a felling, a cantora Maria Gadú, o sucesso doTwitter (o microblog que virou mania mundial), o BBB10 da Globo (rsrsrs). Foi também o verão das comidinhas gostosas e refrescantes como os sorvetes de frutas, das caipirinhas com picolé (as caipilés), os drinks com pimenta, assim como os vinhos e os espumantes rosés.

Agora acabou-se, já estamos no outono! Vamos então viver as novidades que a nova estação nos traz!


21 março, 2010


Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dono dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a a enganar nuca me via
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha...


(Chico Buarque de Holanda)

17 março, 2010

A orígem da Pinga




Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou. O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado.
Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o ‘azedo’ do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava.

Daí o nome ‘PINGA’. Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ‘ÁGUA-ARDENTE’. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.


(Fonte: história contada no Museu do Homem do Nordeste – Recife/PE).

12 março, 2010


Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…
Minha vida não foi um romance…
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.
Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!
Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…


(Mário Quintana)