10 novembro, 2008

Talvez














Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,
sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,
sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,
e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.


(Pablo Neruda)

09 novembro, 2008

Os dias
















Um dia eu digo bom dia
no outro eu esqueço de dar
um dia eu digo a verdade
no outro eu vou te enganar
um dia eu lembro de tudo
no outro não vou me lembrar
um dia eu acordo tarde
no outro eu vou madrugar
um dia eu sei a saída
no outro eu vou me perder
um dia eu amo você
no outro eu amo também.


Regina Fernandes

08 novembro, 2008

Sou





















Sou menina dos ventos
ando descalça na areia
olhos açucarados no mar.

Corpo das madrugadas
sorriso com cheiro
de doce de leite.

Coração ambicioso
de uma só flor
amor-perfeito.



Regina Fernandes


04 novembro, 2008

Surdina
















Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?
Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens - é a longa
rota do tempo, descoberta.
Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.
A chuva interfere na música.
Tocam tão longe!
O turvo dia mistura piano,árvore, nuvens,
séculos de melancolia...


(Cecília Meireles)

03 novembro, 2008

A Neurose Obsessiva















O tema da Neurose Obsessiva foi escolhido, entre muitos outros pela complexidade e fecundidade dos seus sintomas, percebidos, na sua maioria, em pacientes masculinos. Observamos que este transtorno apresenta uma multiplicidade tão vasta de fenômenos que até hoje não se conseguiu fazer uma síntese. Freud, de certa forma, foi quem sistematizou seu estudo a ponto de se poder encontrar determinadas características através das quais é possível apontar uma personalidade obsessiva.
O termo inglês obsession (obsessão) foi usado no século XVI, na linguagem religiosa da possessão. Ela vem do latim obsideo, que significa “ocupar um lugar” (daí a idéia de assediar e de investir) e aparece na psiquiatria francesa bem no início do século XIX para designar uma idéia ou imagem que se impõe ao espírito de maneira incoercível e inexpugnável.
De acordo com a clínica psicanalítica, a neurose obsessiva se revela um objeto interessante não só em torno da problemática transferencial analisando-analista, como no fato de ser um verdadeiro desafio clínico.
É importante colocar que percebemos desde o início das investigações de Freud, em 1894, a respeito das obsessões, que a literatura que temos à disposição é menos extensa do que a proliferação de estudos sobre a histeria. Vale destacar que o célebre caso clínico do “Homem dos Ratos” (1909) marca, de certa forma, o início desse caminho de investigações, por vezes inquietante dentro da própria clínica da neurose obsessiva, e que, o próprio Freud, neste caso, chega a afirmar que “a neurose obsessiva é um dialeto da histeria”.
A neurose obsessiva, entidade universalmente reconhecida foi um invento conceitual de Sigmund Freud, no final do século XIX, no qual ele articula uma série de sintomas até então dispersos, num conjunto, organizando uma interpretação que concedeu um novo valor à leitura e à investigação daqueles sintomas. Esse estudo foi uma sucessão às descobertas freudianas feitas no campo da histeria.
Dos textos freudianos podemos extrair de suas investigações sobre os distúrbios intelectuais, patologias do pensamento, que a origem da neurose obsessiva, assim como da histeria tem a ver com as exigências libidinosas do complexo de Édipo. O recalque é apenas um mecanismo que a defesa faz uso.
É importante ressaltar que é no texto sobre A Hereditariedade e a Etiologia das Neuroses (1896) que Freud vai usar o termo Zwangsneurose (neurose obsessiva), que em francês é empregado como “neurose dés obsessions”. Em seguida, o termo é traduzido como “neurose de coerção”. Os autores influenciados pela psiquiatria francesa usaram a palavra obsession (obsessão) para designar “neurose de coerção”. Neste texto Freud torna público pela primeira vez seu novo conceito nosográfico, situando a neurose obsessiva fora do quadro das psicoses e colocando-a junto à histeria no quadro das neuroses.


Regina Fernandes
Psicanalista

02 novembro, 2008

Poeminha Amoroso

















Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo...

(Cora Coralina)

01 novembro, 2008

ReFazendo
















Estou cuidando de mim
revendo caminhos
refazendo escolhas.
Estou cuidando de mim
acalmando a alma
esquecendo amores.
Estou cuidando de mim
refazendo meu jardim
inventando um mundo novo
onde sobrem muitas flores
muitos sonhos
muitas cores.


(Regina Fernandes)